Ana Sigüenza¹

O Conceito de educação integral é o resultado sintético de diversas contribuições de educadores e educadoras ao longo do tempo, sendo o mais genuíno dos princípios da educação libertária, termina por ser, desgraçadamente, o termo mais distorcido por parte dos sistemas educativos.

As sucessivas contribuições dadas à construção deste conceito, de acordo com Paul Robin, resultam de um longo processo de evolução durante o qual diversos educadoras e educadores foram desenvolvendo ideias e tecendo considerações que, em pleno século XIX, já amadurecidas, puderam ser sistematizadas em uma teoria orgânica: “a ideia de educação integral não havia alcançado sua maturidade até pouco tempo” (P. Robin).

Na ideia de integralidade convergem três argumentos:

  1. O direito do indivíduo, independentemente de sua classe social, sexo ou cultura, a desenvolver-se plenamente em todas as faculdades físicas, intelectuais e morais (Iluminismo);
  2. A correspondência entre sociedade e educação, entre igualdade social e educação integral (Proudhon);
  3. A interdependência de todas as facetas do ser humano, como realidade complexa (Francisco Férrer).

 

I1

 

Para Proudhon, a educação hierarquizada está a serviço de uma sociedade hierarquizada, assim, a classe dominante e minoritária receberá o necessário para ser capaz de dominar a uma majoritária classe trabalhadora graças a não-instrução orientada para que esta última siga realizando as tarefas para as quais estaria predestinada (o trabalho braçal). A educação capitalista reforça o sistema de divisão social do trabalho.

Como visto, nesta última argumentação a favor da educação integral, se prescinde do enfoque filosófico individualista e psicológico, em favor do enfoque político-econômico, enfoque de classe. Este seria um novo exemplo da transversalidade da influência das diferentes teorias anarquistas nos temas educacionais, de modo que segundo cada prática educativa as respostas serão dadas à tais questões (social, filosófica, política…), mas inevitavelmente, tendo prioridades diferentes: não é a mesma coisa a Escuela Moderna da rua Bailén² e as Escolas Racionalistas dos anos 30; da mesma maneira, não podemos comparar um ateneu libertário com La Rouche.

Na ideia de Educação Integral, subjaz uma concepção de trabalho que pode ser simbolizada no trabalho artesanal, estratégia segundo a qual o trabalhador procure dominar todas as fases do processo de produção e de serviços, o dando-lhe autonomia e possibilitando a autogestão.

É evidente que o artesanato como forma de produção ruiu diante da industrialização, mas continua sendo importante no âmbito da educação, por sua vez, nas experiências educativas libertárias, o artesanato ou a autogestão da alimentação, dos materiais etc., tem sido e segue sendo uma prática comum aludindo, em certa medida, a educação integral a qual fazia menção Proudhon.

Numa perspectiva “clássica” e de classe, o saber tem mais valor social que o saber fazer. Os senhores sabiam e os escravos faziam. O conceito de educação integral abarca tanto o saber, como o saber fazer e o saber ser e estar.

Bakunin fala de instrução integral como uma forma de proporcionar uma vida mais justa, mas considerando que tal perspectiva de educação enfrentaria resistências na sociedade capitalista. Se uma escola diferente não traz por si só uma sociedade diferente, não é possível uma sociedade diferente sem um ser humano diferente cuja formação se dê numa escola nova.

Afirma que uma escola capaz de proporcionar uma educação tão perfeita quanto possível, não conseguiria, por sua vez, formar seres humanos justos, livre e morais, posto que fora dela se deparariam com uma sociedade alicerçada no contraditório e isto não tardaria a minar-lhes o que a escola construíra. Para produzir uma nova sociedade a educação tem que integrar-se à ação revolucionária e à organização.

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*Fragmento do texto: Pedagogía Libertaria (em espanhol), disponível em: https://www.nodo50.org/tierraylibertad/253.html#inicio traduzido e adaptado por Difusão Libertária

¹É professora e anarcosindicalista espanhola, fili ao Sindicato de Ofícios Vários de CNTAIT Villaverde.

²Referindo-se ao endereço onde Francisco Férrer y Guardia fundou, em 1901, a Escola Moderna, em Barcelona.

 

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Atenção para as datas importantes da 3ª Jornada de Pedagogia Libertária – Anarquismo e Educação Integral:

  • Data da 2ª Jornada – 13 a 16 de outubro de 2015
  • Data limite para envio dos resumos – 31 de julho 2015
  • Comunicação da aceitação – 15 de agosto 2015
  • Data limite para a submissão do texto completo – 15 de setembro de 2015 (O não cumprimento deste prazo limite implica a não inclusão do texto na edição impressa da memória)

 

Cartaz 3ª JNDA OK

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